Para mim continuam a ser um mistério. E cada vez mais como um milagre.
Tenho várias hipóteses e não me parece que consiga chegar a nenhuma conclusão no decorrer deste post, mas vamos lá, sem almejar qualquer conclusão.
1. Passar muito tempo com alguém parece ser o pior a fazer.
Ao princípio parece incrível, como é possível que tenhamos conhecido o amor da nossa vida, a verdadeira alma gémea, com tanto em comum, um espectáculo de pessoa? Como somos sortudos de ter como colegas pessoas com quem conseguimos trabalhar e ter almoços espectaculares! Como é possível termos conhecido aquele casal com quem é tão divertido estar? Parece bom de mais para ser verdade não é? Pois, exacto. Vão ver que com o tempo, essa relação espectacular, seja ela de que índole, vai passar. A pessoa maravilha vai começar a revelar traços que vos porão a perguntar mas que raio, como é que isto é possível? Do nada vão explodir na vossa cara sem se preocuparem minimamente com os vossos sentimentos. Desde tarados sexuais, a deprimidos, a paranóicos, a cabrões, a vida vai-vos presentear de tudo. Só temos de deixar passar o tempo...
2. Nunca conhecemos verdadeiramente ninguém.
É cliché mas é verdade. Temos uma necessidade tão grande de acreditar que conhecemos a última coca cola do deserto que achamos ver nessa pessoa tudo o que queríamos que ela fosse. É como quando lemos o horóscopo, conseguimos colar todas aquelas generalidades a nós e achar que é mesmo verdade. Pois.
3. As pessoas são lixadas da cabeça.
Mesmo. Seja pela maneira como viveram a infância, seja pela quantidade de tempo livre que têm, seja pelos preconceitos que têm, toda a gente vem com bagagem - às vezes vem bem escondida, e só nos apercebemos quando levamos com ela toda pela cabeça abaixo. Porquê? Porque não é fácil de esconder e mais cedo ou mais tarde lá ver tudo a boiar ao de cima...
4. Temos todos muitas coisas a acontecer.
Se calhar uma pessoa até é relativamente normal (seja lá isso o que quer dizer...) mas está a passar uma fase complicada. Quando são coisas traumáticas todos percebemos - morreu alguém na família, a mulher traiu-o, foi despedido, bateu com o carro. Mas às vezes são coisas mesmo nonsense para nós mas do tamanho do mundo para os outros. Há dias em que tudo parece uma catástrofe e quando não estamos bem, quando qualquer coisa não está bem, tudo ganha proporções de apocalipse.
Então não há esperança? Há sim. Alguns conselhos:
- Mudem de colegas de trabalho ao fim de 1 ano, máximo. Sim, mesmo que pareçam espectaculares. Se de facto forem, continuarão a ser amigos. Se não, continuam a ser conhecidos com quem terão um almoço muita divertido de 3 em 3 meses, mas poupam à cabeça o apodrecer da relação.
- Façam questão de demonstrar que não são perfeitos. Esqueçam-se de datas importantes, fiquem 3 dias sem mandar whasapps, não devolvam uma ou outra chamada, recusem um convite para almoçar. Só para gestão de expectativas, para que do outro lado vocês não são nem nunca serão perfeitos.
- Deixem passar no mínimo 5 anos até poderem achar que conhecem bem alguém. Isto depois de conhecerem a família, os filhos, os amigos, os ex-colegas de trabalho, o cadastro, a psiquiatra, os vizinhos.
- Ao longo da vossa vida vão conhecer de facto algumas pessoas de ouro. Um ou outro amigo e se tiverem muita, muita sorte, um marido ou uma mulher para partilhar casa, filhos, amigos. Também vos vai desiludir à brava, mas deixem passar, não desistam. As outras pessoas vão aparecer e desaparecer, mas se tiverem muita sorte,vão sempre ter o vosso porto de abrigo.
Por último e o mais importante: deêm valor à vossa família. Se tinha que vos desiludir, certamente já o fez, e alguns se calhar são mesmo para esquecer. Mas, mais uma vez, se tiverem sorte, vão ter ao vosso lado as pessoas que melhor vos conhecem, que vocês melhor conhecem, com quem passam o melhor e o pior, as pessoas que estão sempre lá e que em caso de necessidade são os primeiros a vos dar a mão. A aparecer nas festas dos miúdos. A ligar quando estão no hospital. A largar tudo quando alguém morreu. A ajudar quando é preciso. A dar mimo só porque sim. Só porque gostamos verdadeiramente uns dos outros. Foquem-se nisto e deixem os outros malucos, deprimidos, opressivos, angustiados, distraídos, egoístas ou simplesmente incompatíveis. Vá, pelo menos ao fim de um ano!