domingo, 8 de outubro de 2017

Genial

Sei lá se há estrelas!
Daqui não as vejo.
Qualquer dia hei-de ir vê-las
ao rio Tejo.

Não no céu tão longe e incerto
onde a custo as descobrimos,
mas a brilharem mais perto
nas águas de treva e limos.

Só assim desse modo
consigo entendê-las.
Caídas no lodo
é que são estrelas.

José Gomes Ferreira

I won't back down

Soa a cliché, é difícil e pode não ser óbvio como chegar lá. Mas pegar em algo que nos disseram para nos mandar abaixo e com isso não só rise above mas ainda reencontrar de novo o nosso caminho, sabe muita bem. 
No meu caso, andei meio desorientada, muito desmotivada e completamente desinteressada do meu trabalho. E levar com repreensões despropositadas parecia ser a machadada final. Mas não foi. Foi o que me fez relembrar quem sou enquanto pessoa e profissional. No meu valor, naquilo em que sou boa e o que me torna melhor. Redescobrir a motivação perdida redirecionou-me de novo. Não numa perspectiva de vingança, mas numa de minimizar aquela vozinha e  maximizar a minha voz. Com força, energia, positivismo e atitude positiva. Porque, afinal, é essa a pessoa que sou.
No i won't back down, por mais que gostassem.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Do amor

 A Rosalina foi minha professora de ciências. Quando ficava nervosa (e com uma turma como a minha era, isso era frequente) ficava toda vermelha às manchas.
A Rosalina e o marido não conseguiam ter filhos, por isso resolveram adoptar. Adoptaram um rapaz que já tinha os seus 11 ou 13 anos. Pouco depois, foi ao médico com uma tosse que não passava. Era cancro. A Rosalina morreu pouco depois. Consta que antes de morrer pediu ao marido que continuasse a tomar conta do filho recém adoptado.

Isto do amor de mãe, amor seja lá do que for, é tudo igual. É amor. É capaz de ver os outros antes de nos ver a nós, é não ter dúvidas do caminho a seguir. É não ter dúvidas quando há decisões a tomar: a carreira ou o filho? O amigo ou o marido? Eu ou os outros? A família ou os amigos? Não tem a ver com a criança ser nossa ou adoptiva, em ser um marido, um cão ou um gato.
É amor.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Férias

Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeee. Mãe! Mãe! Eu quero a mamã! Não, eu é que quero. Mãeeeee!

Os dramas, as birras, as calamidades, eu quero, eu quero, eu não quero, não faças isso, já te disse para não fazeres isso!, quero acordar! quero ir brincar!, não quero voltar para a escola, quero ficar para sempre com a mãe!.

A sério, pessoas com filhos deviam ter férias depois das férias. Devia estar na lei. Para depois passar essas férias cheia de saudades deles!

terça-feira, 27 de junho de 2017

It is here

Nos meus 15 anos passei uma fase muito zen e peace and love. Eu não era como as outras miúdas da minha idade, por vários motivos, não era e não podia ser. Tinha muito tempo livre e ao vasculhar as cassettes do meu pai (numa caixa cor de laranja, que rodava) encontrei uma cassette de John Denver. Ouvi vezes e vezes, escrevi a letra, a minha preferida, a que oiço agora, Rhymes and Reasons.

Nos últimos dias, semanas e meses tenho andado angustiada, perdida, desorientada com o sentido da vida. It is here. De facto, não há nada que eu possa fazer. O meu corpo pode-me trair, posso morrer numa ida à terra no fim de semana, a caminho do trabalho, uma doença prolongada, um acidente repentino, um ataque terrorista, um espelho que cai. A mim, aos meus. Não há como saber, como prevenir, como evitar. Não sei qual é o sentido da vida, o objectivo maior que me tem aqui, o que é suposto eu fazer ou não. Só posso viver a minha vida o melhor que conseguir, sendo a melhor pessoa que conseguir, o mais tranquila que conseguir. Viver tranquila e feliz, criar os meus filhos, os filhos deles se tiver sorte, os meus sobrinhos, amigos, família, ser a melhor pessoa que conseguir para o máximo de pessoas que conseguir. Com a paz de espírito que esta canção me deu aos 15 anos, com o sorriso de alívio que me põe no rosto, com a tranquilidade e felicidade possíveis.

Estou aqui, o sentido de estar aqui só pode ser... estar aqui!


What if...

Ok: então se eu pudesse mudar alguma coisa, qualquer coisa, o que seria?

1. Deixava de trabalhar
Algumas pessoas não acreditam mas é verdade. Deixava de trabalhar. De ter de chegar a horas, sair a horas, passar um dia presa a uma cadeira e um computador, a fazer coisas tão irreais que nem vos consigo descrever. Parece um pouco o meu curso de engenharia electrotécnica. Acham que aprendi a arranjar torradeiras e a montar instalações eléctricas? Não. Aprendi transformadas de Fourier, de Laplace e coisas igualmente transcendentais. No trabalho é o mesmo. São carradas de pessoas a gastar a sua melhor energia em projectos que... enfim, sabe Deus. No final, bem no finalzinho, é para alguém ganhar bateladas de dinheiro (vários alguéns). Eu ganho a minha partezinha, que me permite ter uma vida tranquila e confortável - o que já não é pouco. Mas deixava o trabalho. Ou arranjava outro, mal pago, mas que fizesse algum tipo de significado para a sociedade.

2. Cuidava de mim
Fazia ioga, caminhava, dormir, fazia limpezas de pele, enfim, coisas que me fizessem mais saudável e zen.

3. Brincava mais
Só brincar. Sem querer saber de fazer o jantar, da hora do banho, da hora do jantar.


domingo, 25 de junho de 2017

Medo

Nunca pensei tanto na morte como nos últimos tempos. Depois da minha tia ter morrido 1 mês e meio depois de diagnóstico de cancro; depois de 50 pessoas terem morrido num incêndio que começou no dia da sua morte; depois de ter feito 35 anos e começar a pensar no sentido da vida. Sei que as tragédias nos devem fazer pensar na vida e não na morte; sei que tal como fazia quando estava grávida devo pensar que tudo vai correr bem; sei que tenho de viver sem pensar na morte.

Ah! “Se eu não morresse, nunca! E eternamente

Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!”

sexta-feira, 16 de junho de 2017

What was left after that too

No outro dia resolvi partilhar algo pessoal de um período marcante da minha vida com alguém. Alguém esse que disse "ah, obrigada pela partilha, mas de facto não me identifico nada com isso".

Ontem pensava eu: eu nunca tinha partilhado aquilo com ninguém, pelo menos daquela maneira. Não teve nenhuma utilidade para o primeiro objectivo, mas para mim acabou por ter muita. Porque me é pessoal. Porque ficou bem escrito. Porque vale a pena ser recordado e partilhado. Porque só ter andado a matutar aquilo durante o dia a pensar como poderia pôr em palavras foi bom. Tenho de fazer mais vezes.

Gosto desta maneira de pensar, de olhar para as coisas não como negativas mas ver como as podemos tornar positivas. Do que de bom podemos tirar da situação.

Outra coisa boa foi que nesse dia voltei a ouvir música, estive uma meia hora só a ouvir música. Música feliz, alegre, que nos faz dançar e voar um bocadinho.

Obrigada pela nega!

(um dia destes ponho aqui a tal partilha)

And I never wanted anything from you
Except everything you had
And what was left after that too, oh.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

As pessoas

Para mim continuam a ser um mistério. E cada vez mais como um milagre.
Tenho várias hipóteses e não me parece que consiga chegar a nenhuma conclusão no decorrer deste post, mas vamos lá, sem almejar qualquer conclusão.
1. Passar muito tempo com alguém parece ser o pior a fazer.
Ao princípio parece incrível, como é possível que tenhamos conhecido o amor da nossa vida, a verdadeira alma gémea, com tanto em comum, um espectáculo de pessoa? Como somos sortudos de ter como colegas pessoas com quem conseguimos trabalhar e ter almoços espectaculares! Como é possível termos conhecido aquele casal com quem é tão divertido estar? Parece bom de mais para ser verdade não é? Pois, exacto. Vão ver que com o tempo, essa relação espectacular, seja ela de que índole, vai passar. A pessoa maravilha vai começar a revelar traços que vos porão a perguntar mas que raio, como é que isto é possível? Do nada vão explodir na vossa cara sem se preocuparem minimamente com os vossos sentimentos. Desde tarados sexuais, a deprimidos, a paranóicos, a cabrões, a vida vai-vos presentear de tudo. Só temos de deixar passar o tempo...
2. Nunca conhecemos verdadeiramente ninguém.
É cliché mas é verdade. Temos uma necessidade tão grande de acreditar que conhecemos a última coca cola do deserto que achamos ver nessa pessoa tudo o que queríamos que ela fosse. É como quando lemos o horóscopo, conseguimos colar todas aquelas generalidades a nós e achar que é mesmo verdade. Pois.
3. As pessoas são lixadas da cabeça.
Mesmo. Seja pela maneira como viveram a infância, seja pela quantidade de tempo livre que têm, seja pelos preconceitos que têm, toda a gente vem com bagagem - às vezes vem bem escondida, e só nos apercebemos quando levamos com ela toda pela cabeça abaixo. Porquê? Porque não é fácil de esconder e mais cedo ou mais tarde lá ver tudo a boiar ao de cima...
4. Temos todos muitas coisas a acontecer.
Se calhar uma pessoa até é relativamente normal (seja lá isso o que quer dizer...) mas está a passar uma fase complicada. Quando são coisas traumáticas todos percebemos - morreu alguém na família, a mulher traiu-o, foi despedido, bateu com o carro. Mas às vezes são coisas mesmo nonsense para nós mas do tamanho do mundo para os outros. Há dias em que tudo parece uma catástrofe e quando não estamos bem, quando qualquer coisa não está bem, tudo ganha proporções de apocalipse.

Então não há esperança? Há sim. Alguns conselhos:
 - Mudem de colegas de trabalho ao fim de 1 ano, máximo. Sim, mesmo que pareçam espectaculares. Se de facto forem, continuarão a ser amigos. Se não, continuam a ser conhecidos com quem terão um almoço muita divertido de 3 em 3 meses, mas poupam à cabeça o apodrecer da relação.
 - Façam questão de demonstrar que não são perfeitos. Esqueçam-se de datas importantes, fiquem 3 dias sem mandar whasapps, não devolvam uma ou outra chamada, recusem um convite para almoçar. Só para gestão de expectativas, para que do outro lado vocês não são nem nunca serão perfeitos.
 - Deixem passar no mínimo 5 anos até poderem achar que conhecem bem alguém. Isto depois de conhecerem a família, os filhos, os amigos, os ex-colegas de trabalho, o cadastro, a psiquiatra, os vizinhos.
 - Ao longo da vossa vida vão conhecer de facto algumas pessoas de ouro. Um ou outro amigo e se tiverem muita, muita sorte, um marido ou uma mulher para partilhar casa, filhos, amigos. Também vos vai desiludir à brava, mas deixem passar, não desistam. As outras pessoas vão aparecer e desaparecer, mas se tiverem muita sorte,vão sempre ter o vosso porto de abrigo.
Por último e o mais importante: deêm valor à vossa família. Se tinha que vos desiludir, certamente já o fez, e alguns se calhar são mesmo para esquecer. Mas, mais uma vez, se tiverem sorte, vão ter ao vosso lado as pessoas que melhor vos conhecem, que vocês melhor conhecem, com quem passam o melhor e o pior, as pessoas que estão sempre lá e que em caso de necessidade são os primeiros a vos dar a mão. A aparecer nas festas dos miúdos. A ligar quando estão no hospital. A largar tudo quando alguém morreu. A ajudar quando é preciso. A dar mimo só porque sim. Só porque gostamos verdadeiramente uns dos outros. Foquem-se nisto e deixem os outros malucos, deprimidos, opressivos, angustiados, distraídos, egoístas ou simplesmente incompatíveis. Vá, pelo menos ao fim de um ano!


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Primavera

Vou tentar. Ser mais positiva, sentir-me melhor com que tenho em qualquer momento. Apreciar mais as coisas boas e ver menos as más. Relaxar mais, olhar menos para o relógio, ter mais paciência. Ser mais zen, mais tranquila. Tentar adiar menos e fazer mais - mas não stressar se nao conseguir. Não desanimar quando as coisas não são 100 por cento espectaculares. Parar mais, pensar mais, ler, ouvir música, escrever. Deixar o trabalho consumir-me o menos possível - e trabalhar o menos possível. Aproveitar os meus filhos, tal como são, mas aproveitá-Los ao máximo antes que cresçam.
Aproveitar e ser feliz :)

domingo, 12 de março de 2017

Não quero nada. Já disse que não quero nada.

Não quero pensar que é dia de lavar as camisas, de apanhar o que já secou, de ir lavar a loiça, de levar o lixo, de arrumar os caixotes, de organizar nas caixas organizadoras, de pagar a conta, de procurar o papel, de mandar o e-mail, de marcar as consultas, de ir preparar a roupa para amanhã - de me lembrar que é dia de ginástica - porque à segunda-feira tudo demora mais tempo e saímos de casa sempre tarde depois a segunda circular está entupida depois chego tarde saio tarde está o caos instalado porque a segunda circular está entupida chego tarde à creche sair da creche demora uma eternidade chegar a casa fazer o jantar brincar cinco minutos gritar meia hora anda tomar banho se não vais dormir tarde acordas tarde e o caos recomeçou, de estudar francês que amanhã há teste, de pensar em todas as coisas que queria fazer e não fiz e agora só há nova oportunidade no fim de semana que vem se tiver sorte porque este não tive, porque de semana é das 9h às 18h no trabalho e sair a correr para o segundo trabalho que me espera todos os dias acho vou fazer isto e isto e isto e depois dos meninos estarem na cama estou tão podre que nos dias bons só consigo tirar as lentes.
Ai.
Não quero nada.
Não quero ter de pensar fazer planear organizar.
Só queria mesmo um tempinho para mim, para parecer que sou uma pessoa. Fora do trabalho, fora de casa, fora de ser mãe, fora de ser mulher. Ser eu, só um bocadinho. Já não peço coisas loucas tipo um dia inteiro, ou dormir para lá das 7h em qualquer dia da semana ou conseguir estar 5 minutos sem ouvir mãe tenho fome tenho sede tenho xixi ele bateu-me ela tirou mãe posso isto posso aquilo ou só gritos. Só peço 1 hora, vá lá 2. Calma, não é por dia, não sou louca, mas por semana? Seria possível? Só para ir às compras, andar na rua sem a visão periférica accionada para garantir que não perco nenhum filho. 1 hora?
Estou cansada, estou exausta, estou angustiada e ligeiramente deprimida. Eu sei, sou mãe, é mesmo assim, faz parte da job description.
Então boa noite e obrigada por não terem perguntado nada nestes 10 minutos.