domingo, 13 de dezembro de 2015

Viver muito também cansa

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto. (...)"

 José Gomes Ferreira

Talvez 80 e muitos anos seja o mesmo que sempre.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Serifo

Tenho saudades do Serifo. De lhe conseguir roubar um sorriso, sorriso aberto, franco, lindo. O Serifo tem 5 anos e tem passado as últimas semanas internado no hospital, com os irmãos a tomar conta. Tem saudades da mãe. Chora de noite e tem dores depois de comer. Tem os dedos fininhos e mãos magrinhas. E tem um sorriso lindo, já disse? Tenho saudades dele. Principalmente porque sei que dificilmente o vou voltar a ver. Prometi a mim mesma que não o vou esquecer e que vou fazer alguma coisa por ele e pelos outros meninos que vivem em hospitais. Meninos com doenças profundas que não lhes permitem falar, andar, correr. Mas conseguem sorrir. Se nos esforçarmos, se merecermos, eles dão-nos um sorriso e não há coisa melhor.
Tenho saudades, Serifo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Eu fui

Hoje fiz uma viagem ao passado. Sim, há quem diga que isso não é possível, mas garanto-vos que eu fui ao passado. Entrei na minha cápsula, marquei o ano de 2006 e... fui. Foi a experiência mais surreal dos últimos tempos. O espaço era o mesmo, em alguns casos, igualzinho. Havia caminhos de que já não me lembrava, apesar de os ter feito diariamente, e havia outros que eu pensava que já não lembrava e os meus pés levaram-me por eles, com  a mesma naturalidade com que em 2006. Os mesmos cromos no corredor, com as mesmas conversas (a álgebra, as notas, o professor,...), os mesmos professores com a mesma pancada, o mesmo cheiro, as mesmas pautas, as mesmas aulas no GA1, o mesmo frio na casa de banho, os mesmos miúdos que olhavam para mim da mesma maneira - se bem que agora não deviam pensar "olha uma miúda" mas sim "olha uma cota". 7 anos da minha vida passados ali e há tanto tempo que não voltava. É um pouco assustador fazer uma viagem destas ao passado, é tudo assustadoramente igual, como se o tempo não tivesse passado por ali. Mas passou por mim, sem dúvida, até os meus pés esqueceram o caminhos, os passos que deram tantas e tantas vezes.
Não há conclusões, não há metafísicas, apenas esta magia incrível de quem viajou no passado, tão facilmente - ele está ali, à disposição de quem quiser lá voltar e entrar naquela bolha. Deixar o nosso espaço e tempo e entrar assim noutro é... revigorante.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Il pleure dans la rue

Passou o Verão e eis que de novo temos janela à chuva. O conforto do Outono, deprimente, triste, escuro, chuvoso de dias pequeninos. Mas aconchegante.
Os dias são pequenos, o que é um sinal de que são mais felizes. Já não angustio tanto o que só pode ser um sinal de que encontrei algo de que gosto de fazer. Durante o dia, claro. No meu segundo emprego, o tempo continua a correr de mais, depressa de mais. Mas feliz, muito feliz.

Gostava só que os dias - neste caso, as noites - tivessem mais umas horas. Só para estar assim um bocadinho todos os dias, depois do trabalho, depois das crianças, antes do sofá, antes do sono (tanto sono), estar assim um bocadinho.
Música, chuva, janela, eu. Nós.

domingo, 28 de junho de 2015

Cucurucucu, tu, me amas tu?

Uma frase, uma palavra. Como foi, como estás, o que fizeste.
Isso ou nada.
A preocupação, o interesse, a curiosidade. O nada.
Nem que seja fingido, por cortesia, por obrigação, mesmo que a intenção nunca seja ouvir a resposta.
Por casa pergunta que não é feita, trilhamos o nosso caminho. Os nossos caminhos. Não é um, são dois. Por cada pergunta que não é feita vamos divergindo. Por cada pergunta que não é feita é mais uma temporada naquele lugar onde estou sozinha, tão sozinha, sempre sozinha. Mas querendo, vejo que não estou sozinha, que tenho outros que me fazem essas perguntas. E até querem ouvir. Quem está lá, sempre lá, a mãe. A minha mãe. Pergunta, ouve. à medida que envelhecemos, eu e as minha mãe, e os nossos caminhos que voltam a convergir um bocadinho e a andar lado a lado.

Assim vamos caminhando, lentamente, todos os dias um bocadinho mais longe um do outro. Tranquilos, fingimos que não vemos, que não reparamos nos pequenos gestos que deixámos de ter, na palavras que já gastámos, nas perguntas que já não fazemos, tão somente porque não queremos saber das respostas, porque nem nos lembramos. Assim vamos andando, até que uma dia vão aparecer outros e outras que nos façam relembrar que somos homem e mulher. Até lá, caminhamos, vemos os filhos a crescer, nós a envelhecer.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Ainda não

Haverá noites em que serão férias com os avós e os tios. Depois, virão os escuteiros, as dormidas em casa dos amigos, as noites de os ir buscar às tantas, as noites em que dormem fora de casa, com amigos, namorados, talvez até numa praia ao relento, no banco de jardim.
Mas hoje não. Hoje são os meus bebés que dormem lado a lado, cada um na sua cama.
Hoje não, mas sei que não tarda nada o dia, a noite, em que vou sentir saudades, tantas saudades de quando eles eram meus.
Os meus amores.
As minhas coisas boas.

domingo, 3 de maio de 2015

As pessoas não mudam

Mudam só na nossa cabeça. Ganham virtudes, perdem defeitos, pintam-se de cores nunca antes vistas. Esperamos actos heróicos, lindos, românticos. Mas para além de não mudarem, as pessoas são só  pessoas, cingidas as suas fraquezas, defeitos, humanidade.
Pessoas, so pessoas, não superhomens.
Pessoas que não têm em conta a nossa sensibilidade, os nossos sentimentos, a nossa inteligência. E que acima de tudo não consideram como são para nos, como são e vivem nessa realidade alternativa que é a nossa cabeça. E é tão triste, tão desapontante, tão só, essencialmente tão só, quando percebemos que são pessoas. Só pessoas. E nada mais.

"Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens..."

José Gomes Ferreira

sábado, 18 de abril de 2015

Todas as tuas explosões

A independência pode tornar-se um bocadinho assustadora - ou preocupante. Percebermos que, afinal, conseguimos fazer tudo sozinhos. De semana, ao fim de semana, de dia, de noite. Que pela frequência nos habituamos a não sentir a falta. Já não se sente a falta porque é o normal, somos nós, estamos nós, cada vez mais vezes sozinhos, calados, longe.
Mas ao mesmo tempo dá força e orgulho nessa força - faz-me lembrar aquela miúda que punha umas pedras no bolso e não tinha medo do que se pudesse atravessar à sua frente - se fosse preciso resolvia tudo à pedrada. I can, i am.
Remar, remar.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Em casa de pantufas

O telefone toca às 17h30. "Vou fazer um jantar de anos cá em casa, só assim com 4 ou 5 pessoas, com a velha guarda". E passadas 4 horas lá estamos.
Uns casados com filhos, outros no extremo oposto, com mais ou menos pneus e cabelos brancos, lá estamos. Continuamos a falar das histórias de infância, das maluqueiras de adolescência e dos jantares que fomos fazendo ao long do tempo. Porque nao fazemos mais? Há desculpas, tantas desculpas. Mas há algo de muito reconfortante em estar com estes amigos de sempre. É como estar em casa de pantufas. É bom.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A verdadeira liberdade

Tive duas semanas de férias. De dondoca. De desempregada. De desocupada. E sabem que mais? Adorei. Nestas duas semanas andei quase sempre na rua, sozinha, as crianças ficaram na escola (tirando o dia que passaram em exclusivo com a mãe). É deliciosa a sensação de liberdade em andar sozinha, ir para onde queria e mais ainda, dos telefonemas inesperados a convidar para um café - tá bem, já aí vou ter. Tive muitos almoços com amigos, muita conversa, muito sol, muita rua. Nunca me aborreci ou senti sozinha. Adorei. Só tenho pena que a vida não permita mais férias destas. Férias sem ir de férias, férias só sozinhos com nós próprios, deixar andar e aproveitar a tal liberdade - dava comigo sozinha a sorrir. Feliz. No meio de tanta correria que é a vida e de tantas obrigações que temos - 8 horas de trabalho, tempo com as crianças, tempo com o marido, as horas de sono mínimas - devia também ser obrigatório termos reservado para nós próprios um tempo, uns minutos. Não sendo possível diariamente nem semanalmente, é possível quando dá, e quando surgem oportunidades como esta que tive, é de aproveitar. De apreciar.
Segunda-feira começa uma fase nova da minha vida. Até lá, aproveito estas férias, esta felicidade.

terça-feira, 17 de março de 2015

Oh tempo...

Quando somos mães pela primeira vez, estamos sempre ansiosas pelo próximo passo. Para se sentar, rebolar, comer a sopa, bater palminhas, começar a andar. Lembro-me que passei horas a hipnotizar o meu bebé com um boneco para ele o agarrar, porque sabia que aos 4 meses devia começar a agarrar coisas. Derretemo-nos com as primeiras palavras, com as gracinhas que vão aprendendo. Com a vinda do segundo, então vá de crescer ainda mais depressa. Andar sempre a pé que o colinho acaba, dormir numa cama de crescido, subir sozinho para a cadeira do carro, deixar a fralda e falar que é para dizer logo o que quer, que a mãe já não tem tanto tempo nem paciência para decifrar mensagens.
Quando somos mães pela segunda vez o tempo passa com o dobro da velocidade. Já não há tempo para passar o dia a olhar enternecida para o bebé. Há que arrumar a casa que está sempre um caos, fazer sopas e jantares e sempre que possível, dormir - é que agora são dois a acordar de noite e a chamar pela mamã. Há assim uma noção - com a tua idade o teu irmão já fazia isto, ai é muito mais despachada que o irmão, mas lá está, o tempo tem outra velocidade. Depois é um misto. Por um lado estamos desertas que cresçam, que se sente para brincar sozinha, mas enquanto a posso deixar sozinha na espreguiçadeira também é bom. Que comece a comer, se bem que agora é preciso fazer duas sopas diferentes. Que beba do biberão, mas assim vai deixar a maminha. Ah, pode ser que comece a dormir mais de noite, mas deixa de precisar da mãe. Só da mãe. Porque queremos que ela fique bem na escola, que vá ao colo de toda a gente para termos uma folga e podermos fazer outra coisa, mas lá no fundo, queremos ser o único colo que a acalma quando chora, queremos no meio de tanta independência que continue a precisar da mamã, só da mamã. É que passou num instante, e já tenho saudades do tempo que virá em que vou ter saudades dos meus bebés.
Ser mãe é querer que o tempo passe a correr e que não passe. Por isso é que as desgraçadas das crianças continuam a ser os bebés da mamã até... até sempre.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Eu, a miúda

Se me perguntarem assim de repente a idade é capaz de me sair um 27. Apesar das rugas e dos já incontáveis cabelos brancos, acho mesmo que as pessoas quando passam por mim pensam: olha esta miúda. Pois na minha cabeça, é a imagem que tenho de mim mesma: uma miúda. E mesmo quando ando com os meus filhos, uma miúda.
Entra então aqui a teoria que desenvolvi recentemente: os filhos é que nos envelhecem. Eu continuo a mesmíssima, mas o meu filho está consideravelmente diferente: há 3 anos ainda vivia na barriga da mãe e hoje é um rapazinho feito. A miinha filha que há 1 ano era do tamanho de um feijãozinho, é hoje uma bebé de quase 6 meses que já passa os dias longe de mãe. Ah pois é, eu continuo a mesma miúda, mas afinal já passaram 3 anos e eu tenho a prova disso cá em casa. Eles envelhecem-nos mas nós também não damos bem conta disso. Há provas, indícios: a roupa que lhes deixa de servir, as palavras novas que dizem todos os dias, as vontades que expressam - se estivermos atentos, elas estão lá. Mas todos os pais também sabem que à parte das provas, à parte do que eles e o resto do mundo dizem, eles continuam a ser os nossos bebés. Vão aprendendo a andar, a falar, deixam as fraldas e as chuchas, mas são os nossos bebés. E presumo que só quando apanhar o meu bebé a fumar, a beijar uma rapariga, a surripiar-me os trocos da carteira, a dizer que vai sair à noite ou que quer ir de férias sozinho é que me vou aperceber de que o tempo passou. Porque de resto não sentimos. Quando era criança uma pessoa de 40 anos era velha, hoje 40 é normal, 60 ainda é mais ou menos, ok, 70 já é velho.
Eu? Eu sou uma miúda, tenho só... er.... 33. O meu sobrinho que nasceu enquanto eu ainda estava na universidade? Já tem 9 anos. Esquece lá isso. Eles é que estão crescidos, eu não estou velha!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Depois de amanhã já tudo vai ser diferente. Já não vou estar de licença, vou estar de férias. A minha bebé vai viver sem mim e vai conseguir, e pior, eu vou viver sem ela. São estas as nossas últimas horas de licença, ela dorme, eu escrevo e chove lá fora. Ninguém acredita, mas esses meses passaram a voar. E eu era capaz de recomeçar tudo de novo. Só me apercebo de que o tempo passou quando me lembro que ela nasceu em Agosto, era verão e fazia calor e agora termina Janeiro, é inverno e chove. Não quero deixar a minha bebé, não quero voltar ao mundo real, ao mundo a sério, ao mundo em que pago a alguém para ver os meus filhos crescer e serem lindos.
Estou mesmo deprimida. Deprimo, nestas últimas horas. Amanhã não, mas depois de amanhã tudo vai acabar, começar, recomeçar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Janela à chuva

Estou em fase de depressão pré-regresso ao trabalho. Por vários motivos: adoro a minha bebé, adoro estar em casa e adoro não trabalhar. É verdade, invejo de morte aquelas pessoas que conseguem ganhar a vida a fazer o que amam. Já eu faço "cenas" que nenhuma criança diz que quer ser quando for grande. Eu queria ser cabeleireira porque adorava cabelos - e a minha mãe não me deixava tê-los compridos. O mais parecido que conseguia era quando punha as calças do pijama na cabeça e experimentava como seria a vida com cabelos que me davam pela cintura. Queria ser secretária para ter papéis e escrever e organizar. Pois quis o destino que não fosse nem uma nem outra. Faço reuniões e documentos e planos. A boa notícia é que já posso ter o cabelo do comprimento que quero.
Muitas recém mães escrevem textos exagerados sobre como é ter um bebé, um inferno em que estamos sempre sujas e com fome (apesar de gordas) e as criancinhas são uns terrores que nos sugam toda a vida. Mas terminam sempre com a bela lição de que não quereríamos outra coisa no mundo, nunca as ditas criancinhas vão ler os escritos. Pois eu não me queixo. É verdade, não me queixo dos meus filhos. Também me deixam a cabeça em água, também me acordam n vezes por noite (e quando são dois é 2xn, às vezes n^2), mas comem, dormem, são lindos e adoram-me e pior, eu adoro-os. Adoro estar em casa e não sinto falta de estar com adultos. Não me levem a mal, gosto de conversar com adultos mas muitas vezes não são muito mais interessantes que as crianças lactentes. Além do que eu falo com adultos, pergunto à professora do meu filho como correu o dia e troco uma meia dúzia de frases com o meu marido entre os banhos das crianças, o nosso jantar e a hora em que desmaio no sofá. Maior parte destas frases são já quando ele me tenta acordar para ir para a cama, (diz ele) que tem de me chamar umas 30 vezes e só resulta quando me destapa e eu quase o agrido.
Por isso estou em pré-depressão. Depressão de pré. A aproveitar enquanto posso estar em casa, de pantufas e de mantinha, a ver a janela à chuva.