O relógio castanho em cima da lareira. Tic tac, tic tac.
A toalha da mesa das crianças.
A cafeteira com o café de borras a assentar.
O copo de plástico cor de laranja.
O sofá, espuma em cima de tijolos.
Tic tac, tic tac.
O iman no sabonete da casa de banho.
O silêncio da sala, cheia de fotografias sorridentes.
A renda no móvel.
O bar, a sua portinhola engraçada, o cheiro das garrafas, os cálices bonitos.
A mesinha pequenina onde havia um pote com beijinhos.
A lata na cozinha com os rebuçados para a tosse.
A outra parte da sala onde estava a loiça dos almoços de domingo.
O relógio do quarto.
O roupeiro da sala, o seu espelho, as tralhas lá dentro.
A máquina da costura.
Quando me perguntam: o que queres da casa da avó, entro novamente naquela casa, relembro todos os pormenores, a avó sentada no sofá, em silêncio, a fazer renda, só se ouve o tic tac, o tempo lá passado "a fazer companhia", em silêncio, os almoços de batatas a murro e bacalhau assado, sopa de pepino a acompanhar, o silêncio para ouvir o telejornal da uma, e lá estamos os 3. Eu, a avó, o avô. O café antes do comboio (as canecas do café). As histórias da avó, as mãos todas enrugadas, o riso que lhe faz os tremeliques na cara que ela se apressa a tapar com a mão. O xaile, a renda, as agulhas, o cestinho da renda, a caixa da costura. A avó.
Estas lembranças já têm 5, 10, 20 anos. É assim que a lembro.
O que quero da casa da avó. Estas lembranças. Continuar a ser capaz de entrar naquela casa, de ouvir o "olhá Sofia".
Para sempre lá estarão os meus avós, Josefina e Eduardo.
Obrigada por tudo.