Em criança tinha um grupo de amigas - éramos 5, as CAI - Cinco Amigas Inseparáveis. Só que o que mais fazíamos era separarmo-nos. Havia sempre sub-grupos às vezes tão somente porque alguém - as líderes do grupo - decidiam "vamos deixar de falar com ela". Ser a excluída era o terror. Era ver ou imaginar as outras aos segredinhos a dizer mal de mim, a rir, a gozar com a roupa, o cabelo, o que fosse. Eu não era a mais bonita, tinha cabelo curto e grandes patilhas, um dente defeituoso saliente. Não me lembro de ficar sozinha mesmo, excepto uma vez em que uma das líderes gozou comigo e eu virei costas furiosa. Continuei a andar furibunda, até outro elemento das CAI que tinha sido também excluído vir falar comigo.
Isto foi há 30 anos e não havia Whasapp. Agora se destoamos da opinião publicamente partilhada de uma conversa de grupo vemos ou imaginamos as conversas paralelas. Vem aquela sensação do "estão a falar mal de mim" e o desconforto que isso gera. Mas porquê?
Adoro os meus filhos e são de longe a minha prioridade. Quero que tenham a melhor vida possível. Mas tenho confiança neles e na sua facilidade de adaptação a situações novas. E quando não tenho tento ajudá-los a ganhar. A minha filha era (e ainda é) muito tímida por isso comecei a prepará-la para mudar de escola 1 ano antes. Pu-la em situações novas e desconfortáveis para as duas, levei-a para fora da sua zona de conforto e não tenho dúvidas que isso a fez mais forte. Se a professora muda ou sai da escola não vejo isso como o descalabro das vidas deles que os vai prejudicar. Vejo como uma oportunidade de terem de se adaptar a novas situações. De perceberem que há imprevistos na vida. De conhecerem uma professora ainda melhor que a anterior. De os tirar da zona de conforto. Vejo sinceramente como positivo terem estes percalços em ambiente controlado como uma vacina que os vai ajudar a lidar com situações mais graves no futuro. Porque controlamos tão pouco do que acontece que só podemos dar-lhes as ferramentas que os ajudem a crescer.
Todos temos direito a ter opiniões diferentes, claro, mas não me incluam em carneiradas de linchamento só porque os meninos tiveram uma perturbação no seu caminho para a glória. Não contem comigo para discriminar professoras que foram mães ou ficaram doentes. Em criança não o fazia, para não ser excluída ou falada ficava do lado das líderes contra as excluídas. Mas agora não, já não preciso. Posso ficar com o desconforto de destoar da opinião geral mas não alinho.
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
sexta-feira, 16 de novembro de 2018
Cake it is
De facto a última coisa de que a internet precisa é de blogs de mães, de famílias, de receitas, de organização, de janelas à chuva. Milhares e milhares destes blogs andam por aí - e não falo dos populares que têm seguidores e leitores e por isso se tornaram "influencers" que publicitam tudo e mais alguma coisa. Falo de blogs anónimos, blogs pequeninos de quem escreve como hobbie ou seja lá o que for.
O único blog que segui foi o do meu pai. E só o segui por ser dele. Começou com as coisas dele da linguística, depois fotos da família e acabou por ter textos únicos que contam a sua história, a nossa história. Tanto que me dei ao trabalho de os compilar num livro, exactamente por serem tão especiais. Especiais para mim, que sou filha dele. Certamente especiais para o resto da família e amigos que o conhecem. O resto do mundo - ou da blogsfera - está-se a marimbar porque aquilo não lhe diz nada.
Quero com isto dizer: se queremos fazer alguma coisa, fazemos para os que amamos. Quando faço um bolo é para a minha família, para os meus amigos. Não faço para ir pôr ali no meio da rua e ver se algum estranho lhe pega.
Portanto: chega de papéis escondidos em gavetas, ficheiros no computador. Se me dou ao trabalho de guardar tantas e tantas palavras é porque são importantes para mim e porque contam a minha história - que por ser minha me parece relevante guardar. Está na hora de servir o bolo.
O único blog que segui foi o do meu pai. E só o segui por ser dele. Começou com as coisas dele da linguística, depois fotos da família e acabou por ter textos únicos que contam a sua história, a nossa história. Tanto que me dei ao trabalho de os compilar num livro, exactamente por serem tão especiais. Especiais para mim, que sou filha dele. Certamente especiais para o resto da família e amigos que o conhecem. O resto do mundo - ou da blogsfera - está-se a marimbar porque aquilo não lhe diz nada.
Quero com isto dizer: se queremos fazer alguma coisa, fazemos para os que amamos. Quando faço um bolo é para a minha família, para os meus amigos. Não faço para ir pôr ali no meio da rua e ver se algum estranho lhe pega.
Portanto: chega de papéis escondidos em gavetas, ficheiros no computador. Se me dou ao trabalho de guardar tantas e tantas palavras é porque são importantes para mim e porque contam a minha história - que por ser minha me parece relevante guardar. Está na hora de servir o bolo.
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Já 3 anos
Só me lembrei porque passou por mim uma ambulância - fez ontem 3 anos. E pela primeira vez não me lembrei, o dia 14 não me fez recordar nada. É bom não ter lembrado, quer dizer que o trauma já não está tão presente. Mas não esqueço - e não quero esquecer - o dia em que achei que tinha perdido tudo. Quero lembrar como num segundo tudo muda e como devemos sempre agradecer a perfeição quando a temos em toda a imperfeição da vida.
E não esqueço os meninos, o Serifo, as enfermeiras, as médicas, as pessoas que me ligaram a dar força, falar com a minha avó.
E não esqueço os meninos, o Serifo, as enfermeiras, as médicas, as pessoas que me ligaram a dar força, falar com a minha avó.
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