sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Yeah

Aprendi no outro dia num reality show: podemos fazer parte do problema ou parte da solução. Tenho vindo a pensar nisto. Posso ficar a deprimir porque ninguém me preparou uma surpresa nos meus anos - parte do problema. Ou para o ano posso eu planear o meu dia especial e pôr os meus filhos a fazer postais para mim. Não é surpresa mas e então? - parte da solução.
Posso ficar a sentir-me horrível e sozinha, a soluçar porque ninguém me pergunta como estou - parte do problema. Ou posso pôr uma das canções mais alegres que conheço e seguir o meu dia - parte
 da solução. Adivinhem qual me faz sentir melhor?

You got the music in you!

Força

Àz vezes sinto que não aguento mais. Que não vou conseguir mais um dia desta rotina. Que não aguento mais discussões de manhã para despachar. Que não aguento mais migalhas no chão. Que não aguento mais roupa para estender. Que não aguento mais ir buscá-los, cuidado com a estrada, não mexas no teu irmão, senta-te e põe o cinto. A única coisa que me faz ver a luz no fundo deste túnel de rotinas e de repetições é que sei que está quase a mudar e não tarda vou olhar com uma espécie e saudade e de orgulho de tudo o que fiz, tudo o que faço.
Estou mesmo cansada.
Sinto-me sozinha e cansada.
Se já disse a alguém que me sinto assim? Não, claro que não.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Idade da pedra

Chiu, cala-te. Não sabes o que é ter um trabalho com responsabilidades. Sei lá se posso tirar as férias, não vês que é uma altura importante? Lá por eu ter marcado férias o que é que isso quer dizer? Pensas que posso fazer o planeado? Tenho todas estas coisas importantes a acontecer que tu não sabes mas existem!
Não sou como tu que estás sempre a sair a horas para ir buscar os nossos filhos, ou a sair a meio do dia para ir a dentistas, otorrinos, festas da escola. Ficar de licença em casa? Mas pensas que eu posso faltar ao trabalho tanto tempo? Como tu que ficas em casa 9 meses por causa do bebé? Não os posso ir buscar à escola antes das 19h, eu trabalho!
Não sou como tu que gostas de andar a correr para a frente e para trás a tentar chegar a horas a todo o lado. Não sou como tu que gostas de planear o jantar com antecedência para poderes estar uns minutinhos a brincar com as crianças. Não sou como tu que gostas de trabalhar à noite em casa para compensar todos os dias em que sais à hora, todos os dias em que sais mais cedo para ir a dentistas, otorrinos, festas da escola. Não sou como tu que podes meter baixas e licenças. Não vês que eu trabalho? Cala-te!

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A ovelha negra

Em criança tinha um grupo de amigas - éramos 5, as CAI - Cinco Amigas Inseparáveis. Só que o que mais fazíamos era separarmo-nos. Havia sempre sub-grupos às vezes tão somente porque alguém - as líderes do grupo - decidiam "vamos deixar de falar com ela". Ser a excluída era o terror. Era ver ou imaginar as outras aos segredinhos a dizer mal de mim, a rir, a gozar com a roupa, o cabelo, o que fosse. Eu não era a mais bonita, tinha cabelo curto e grandes patilhas, um dente defeituoso saliente. Não me lembro de ficar sozinha mesmo, excepto uma vez em que uma das líderes gozou comigo e eu virei costas furiosa. Continuei a andar furibunda, até outro elemento das CAI que tinha sido também excluído vir falar comigo.
Isto foi há 30 anos e não havia Whasapp. Agora se destoamos da opinião publicamente partilhada de uma conversa de grupo vemos ou imaginamos as conversas paralelas. Vem aquela sensação do "estão a falar mal de mim" e o desconforto que isso gera. Mas porquê?

Adoro os meus filhos e são de longe a minha prioridade. Quero que tenham a melhor vida possível. Mas tenho confiança neles e na sua facilidade de adaptação a situações novas. E quando não tenho tento ajudá-los a ganhar. A minha filha era (e ainda é) muito tímida por isso comecei a prepará-la para mudar de escola 1 ano antes. Pu-la em situações novas e desconfortáveis para as duas, levei-a para fora da sua zona de conforto e não tenho dúvidas que isso a fez mais forte. Se a professora muda ou sai da escola não vejo isso como o descalabro das vidas deles que os vai prejudicar. Vejo como uma oportunidade de terem de se adaptar a novas situações. De perceberem que há imprevistos na vida. De conhecerem uma professora ainda melhor que a anterior. De os tirar da zona de conforto. Vejo sinceramente como positivo terem estes percalços em ambiente controlado como uma vacina que os vai ajudar a lidar com situações mais graves no futuro. Porque controlamos tão pouco do que acontece que só podemos dar-lhes as ferramentas que os ajudem a crescer.

Todos temos direito a ter opiniões diferentes, claro, mas não me incluam em carneiradas de linchamento só porque os meninos tiveram uma perturbação no seu caminho para a glória. Não contem comigo para discriminar professoras que foram mães ou ficaram doentes. Em criança não o fazia, para não ser excluída ou falada ficava do lado das líderes contra as excluídas. Mas agora não, já não preciso. Posso ficar com o desconforto de destoar da opinião geral mas não alinho.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Cake it is

De facto a última coisa de que a internet precisa é de blogs de mães, de famílias, de receitas, de organização, de janelas à chuva. Milhares e milhares destes blogs andam por aí - e não falo dos populares que têm seguidores e leitores e por isso se tornaram "influencers" que publicitam tudo e mais alguma coisa. Falo de blogs anónimos, blogs pequeninos de quem escreve como hobbie ou seja lá o que for.
O único blog que segui foi o do meu pai. E só o segui por ser dele. Começou com as coisas dele da linguística, depois fotos da família e acabou por ter textos únicos que contam a sua história, a nossa história. Tanto que me dei ao trabalho de os compilar num livro, exactamente por serem tão especiais. Especiais para mim, que sou filha dele. Certamente especiais para o resto da família e amigos que o conhecem. O resto do mundo - ou da blogsfera - está-se a marimbar porque aquilo não lhe diz nada.
Quero com isto dizer: se queremos fazer alguma coisa, fazemos para os que amamos. Quando faço um bolo é para a minha família, para os meus amigos. Não faço para ir pôr ali no meio da rua e ver se algum estranho lhe pega.
Portanto: chega de papéis escondidos em gavetas, ficheiros no computador. Se me dou ao trabalho de guardar tantas e tantas palavras é porque são importantes para mim e porque contam a minha história - que por ser minha me parece relevante guardar. Está na hora de servir o bolo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Já 3 anos

Só me lembrei porque passou por mim uma ambulância - fez ontem 3 anos. E pela primeira vez não me lembrei, o dia 14 não me fez recordar nada. É bom não ter lembrado, quer dizer que o trauma já não está tão presente. Mas não esqueço - e não quero esquecer - o dia em que achei que tinha perdido tudo. Quero lembrar como num segundo tudo muda e como devemos sempre agradecer a perfeição quando a temos em toda a imperfeição da vida.

E não esqueço os meninos, o Serifo, as enfermeiras, as médicas, as pessoas que me ligaram a dar força, falar com a minha avó.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Gostava de saber rezar

Ouvia os mais velhos a dizer coisas como "havendo saúde tudo se resolve" e não achava grande significado naquilo. Achava que era coisa de velhotes, que era quase um dizer como "se Deus quiser". Hoje percebo. Depois de ter sido mãe percebi. O aperto no coração porque tem febre. A preocupação, o imaginar cenários, o medo. Ainda hoje passados mais de 6 anos me acontece - ao menor sinal de doença fico em modo pânico.
Vivi tudo isto a outro nível quando tive a minha bebé de 15 meses no hospital 5 dias. Aí era o medo e a preocupação envoltos numa certeza de que a culpa era minha, que me fazia reviver aqueles segundos em que tudo aconteceu e pensar como poderia ter sido tão facilmente evitado.
Tenho um casal amigo de longa data com um filho de 6 anos a começar a escola primária, uma bebé muito desejada acabada de nascer, uma casa nova comprada. Hoje estão no IPO porque subitamente descobriram que o menino tem um tumor na cabeça. O meu coração pára só de imaginar o que estão a viver.
Sim, não é conversa, não é lenga lenga, a saúde é mesmo o mais importante, é o que nos faz viver focados nas pequenas coisas que fazem a vida. Penso nestes amigos e não me preocupo tanto com os disparates dos meus filhos. Dou-lhes mais um beijo à noite e agradeço tanto mas tanto serem saudáveis.
Gostava de saber rezar e de acreditar para pedir a Deus que os ajude e que os livre deste pesadelo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

1 ano depois

Este texto foi escrito em Dezembro do ano passado. Hoje, no dia em que faz 1 ano em que a minha tia morreu, faz sentido recordar e fazer-lhe esta pequena homenagem. Não foi esquecida e continua bem presente na minha vida e na forma como a vivo.
Saudades, tia.


A tia Céu morreu, inesperadamente, violentamente. Fez-me pensar e repensar muitas coisas, velhas questões recorrentes sobre a vida, o tempo, a felicidade. Isso mais um susto de saúde fez-me ver algumas coisas: o que estou disposta a aceitar e o que estou disposta a mudar. Estou disposta a aceitar o meu trabalho, não sendo o ideal, não fazendo nada de útil para a sociedade, permite-me ter uma vida confortável, razoavelmente feliz em termos profissionais.
Algumas pequenas quezílias pessoais e profisionais fizeram-me ver que sei quem sou enquanto pessoa e enquanto profissional. Aceitei o que não posso mudar ou controlar (a morte, as outras pessoas) e a focar-me no que posso controlar (eu, a minha família, a nossa felicidade). Aceitei que neste momento não vou dar (devolver) à sociedade tanto quanto queria. Fico-me por agora por pequenos gestos e a promessa de quando os meus filhos forem maiores me dedicar aos outros. Não esqueço o Serifo, não esqueço Santa Maria, não esqueço as crianças que não têm carinho, um colo, amor. Mas agora tenho de estar lá para os meus filhos. Aceitei, finalmente sem culpa, isto.
Sentei-me mais tempo a brincar com os meus filhos, a preparar surpresas e magia para eles, a investir tempo em mostrar às outras pessoas que gosto delas. Aproveitar mais cada momento, cada dia, ser melhor pessoa para os outros. E isso faz-me mais feliz. Independente de onde trabalho e do tempo que demoro, independente do que o meu trabalho traz de positivo para o mundo.
Mudei de casa, os meus filhos cresceram, fomos de férias, planeamos o futuro. Alguns pequenos projectos saíram da gaveta, outros lá continuam. Para o ano haverá mais, mais entusiasmo, mais alegria.

sábado, 10 de março de 2018

7 anos

No outro dia sonhei com o meu avô. Os seus olhos castanhos delineados a azul brilhavam, Estava com bom aspecto. Conversávamos normalmente e de como ele tinha sobrevivido ao AVC que o levou. Foi tão bom. Quando acordei e me lembrei do sonho, reparei que fazia exactamente sete anos desde a última vez que estivemos juntos. Não se pode dizer que fomos próximos em vida mas também não fomos distantes. Eu tinha grande carinho por ele e sei que ele também. Construi-nos baloiços em crianças. Escondia o cigarro que fumava quando aparecíamos. Grelhava o bacalhau para as nossas batatas a murro que a avó tão bem fazia. Assegurava-se que havia café feito para a minha visita de domingo à tarde. Falávamos de comboios, dos horários. Que saudades...

sábado, 13 de janeiro de 2018

Vamos lá!

2017 foi um ano estranho. De morte, perda, dúvidas, de encontrar um caminho. Este ano promete ser diferente, um ano de vida. No meu coração, a minha tia e tudo o que aprendi com a sua morte. Que este ano seja de paz, amor e felicidade. Cheio de novos desafios 😊