quinta-feira, 17 de junho de 2021

Conversas imaginárias

 Como estás?

Trouxe-te um café/ um bolo / o teu chocolate preferido.

Eu vou aí durante o dia para poderes sair um pouco / ires buscar os meninos / ires comer uma refeição decente / ires a casa descansar / ires dar uma volta.

Tenho saudades tuas.

Queres que fique eu aí durante a noite?

Como é estar aí 24x7 com uma criança de dois anos?

Não te preocupes, ele vai ficar bem.

Tem alta hoje? Estou a ir para aí.

Estás cansada? Vai dormir que eu fico com ele.

Vamos todos buscar os meninos / vamos fazer um jantar especial, afinal, já há uma semana que não estávamos todos juntos.

Pois, conversas imaginárias . Normalmente estas situações servem para aproximar as pessoas mas no meu caso só servem para eu me sentir mais sozinha. Ainda mais. Parecem coisas banais não é? Coisas que consigo imaginar a serem ditas por várias pessoas à minha volta. Mas aquela pessoa com quem partilho a visa há 20 anos, com quem tenho 3 filhos, uma casa, um casamento, não me disse uma destas coisas. Vá, levou-me um café um dia. Porque eu pedi. E levou panquecas para o bebé, porque eu pedi. 


Juro que não percebo, eu acho que sou boa pessoa. E mesmo que fosse uma pessoa horrível, não deixava de ser uma pessoa que esteve no hospital uma semana com um filho doente.

sábado, 12 de junho de 2021

Ko

 Anteontem (tive de pensar 3 vezes qual foi o dia) quando ele começou com febre, pensei: não aguento. Ainda há duas semanas esteve doente, andei a trabalhar todos os dias à noite esta semana, estou ko, não consigo recomeçar nova jornada de febres, noites de febres, choros, birras, tentar trabalhar. Mas bem, a febre não teve pena de mim e começou a atacar. O meu marido como sempre descartou-se e eu, como já começo a aprender algumas coisas, disse que ia meter o dia de assistência à família, pelo menos assim tiro o trabalho da equação. Ia só a uma reunião ou outra (na verdade, tinha 4 planeadas, mas só se desse). Ia na primeira quando agarrei nele e trouxe-o para o hospital, a gemer de dores e eu verdadeiramente assustada que fosse uma apendicite ou tudo mais que me passou pela cabeça. Passei sinais vermelhos e quase liguei os 4 piscas. Ao choro, febre e gemidos juntou-se vómitos, análises, cateter, ecografia, teste à urina, teste covid, nova ecografia. Várias vezes durante o dia agarrei o meu filho à força enquanto ele esperneava e berrava e chorava. Sabem o que isso faz a uma mãe? Depois disseram que ia ficar internado, depois disseram que era numa espécie de SÓ, aqueles sítios abertos onde os doentes são separados por cortinas, há máquinas a apitar a noite toda, enfermeiros e miúdos a chorar ligados a pelo menos 4 fios - um sítio como aquele onde a Rita esteve. Sabem o que isso faz uma mãe? Hoje os crescidos vieram cá e só os pude ver pela janela com 4 andares de diferença. Sabem o que isso faz a uma mãe? Durante o dia boas notícias, mas ainda aqui estamos. Hey, já tomei banho, por isso sinto-me consideravelmente menos mal.

Não faço ideia de como vai ser os próximos dias, quando volto para casa, quando ele volta à escola, quando volto ao trabalho, se vou a formação do iseg  xpto. Não faço ideia de como vão ser os próximos dias - fazem ideia do que isso me faz? - mas vai ser dias de semana, há testes, resmas de roupa para lavar e dobrar.

Sabem como me sinto? E sabem quantas pessoas me perguntaram isso desde ontem? 3. Uma enfermeira, a minha mãe é uma amiga. Sabem como é importante quando estamos nesta situação, destruídas física e emocionalmente, alguém nos perguntar como estamos? lembram-se de que quando isto comecou eu ja estava ko.