quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Do Natal

A Dona B. tem 60 anos, trabalha como mulher a dias. Contou-me uma vez que em Cabo Verde era patroa, tinha um restaurante e um cabeleireiro. Mas ficou doente, teve de vir uma temporada para Lisboa e, quando voltou, o marido tinha já outra no seu lugar. Ela resolveu voltar para Portugal e começou então a trabalhar como mulher a dias.
Há uns meses o marido veio para Lisboa, também por problemas de saúde. Primeiro ela quis-se divorciar, nunca fosse o homem morrer e ela ainda acabava por herdar as dívidas. Mas parece que a doença o deicxou debilitado, tonto como uma criança a quem é preciso pôr a comer, a dormir, tomar banho. E perguntava eu: não há outra pessoa que possa tomar conta dele? Há uma filha, mas ela quer é ficar com a pensão dele e não tem paciência para tratar dele. Então e ele não pode voltar para Cabo Verde? Está doente, a fazer tratamentos, problemas de rins. E diz-me a Dona B.: não o posso deixar. Não o faço por dinheiro, não quero dinheiro nenhum. Penso que se fosse comigo, com os meus filhos que tenho em Cabo Verde, também quereria que alguém fizesse o mesmo por eles. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Há muito tempo que não ouvia nada tão altruísta, tão cristão. Uma mulher que mal tem dinheiro para sobreviver, que já ajuda a filha e os seus 5 filhos (quando a filha se divorciou, a Dona B. partilhou o seu apartamento de 1 quarto com todos 6), mais todos os outros filhos que tem espalhados por aqui e por ali, trata do marido que a trocou, roubou e sabe Deus que mais, que precisa de cuidados permanentes, porque entende que é sua obrigação, que é obrigação de alguém. Fazer o bem na esperança de que quando ela também precisar, alguém lhe dará a mão.

É Natal. Inspiremo-nos para fazer o bem, para agradecer a todos que tornam o nosso dia um pouco mellhor e tentar também melhorar o dia de alguém.

domingo, 4 de setembro de 2016

Quebrar o ciclo

Piscina do ginásio. Mãe (?) já nos seus 40, menino por volta dos 4. Brinquedos, bóias, smartphones. Quando chegaram à água, ela diz-lhe: "se me aleijas levas nos cornos". E foi apenas a abertura. De me levar às lágrimas. Um menino, aos 4 anos, só quer a mãe. Adora a mãe. E certamente não percebe porque é que a pessoa que ele adora, a sua pessoa, o mal trata. Gestos violentos, palavras a condizer. Porquê? Este menino daqui a uns anos, não muitos, vai tratar a sua mãe da mesma maneira. E ela não vai perceber, porque é que o seu filho, a quem ela deu brinquedos e bóias, a trata assim. Sai ao pai, é mau, é um ingrato. Será que em algum momento vai reconhecer nos gestos dele os dela? Ele vai tratar assim a mãe, as namoradas, a mulher, os filhos - e por aí adiante. Onde se quebra o ciclo? Como se quebra o ciclo?
Estacionamento na rua. Casal pelos 20 anos. Ele para ela, insultos, palavrões, ofensas. Ela encolheu, não respondeu, ficou-se. E disse eu, se algum dia algum homem falar assim à minha filha leva uma surra. E ela leva outra, para aprender a nunca se deixar tratar assim.
Como se quebra o ciclo?
Faz falta respeito. A mãe ama o filho, o namorado talvez até goste da miúda. Mas não há respeito. E como se muda isto? Como se educa? Como se diz à mãe que não pode tratar um ser indefeso assim? Como se diz ao menino quando crescer que aquilo não é normal? Que é um menino especial e amado?
Como se quebra o ciclo?
O meu pai conseguiu (http://jose-catarino.blogspot.pt/2013_10_01_archive.html). Mas e todos os outros meninos?

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Epifania

Somos mães, mulheres, trabalhamos - tudo isto implica assim um certo malabarismo, muita culpa e muito desespero por não conseguirmos fazer tudo bem ao mesmo tempo - sou uma mãe dedicada porque não falto as festas da escola, sou uma trabalhadora pouco dedicada porque deixo o trabalho enquanto outros lá ficam. Os filhos esgotam-me a energia, e quem paga é o marido. E por aí fora, toda a gente sabe ou imagina como é. 
Mas no outro dia tive uma epifania. Por acaso, foi um dia em que pude assistir à natação e por acaso fui com a Rita também. O João nao sabia que eu estava lá. E quando me viu, sorriu mas com um sorriso tão grande e tão feliz que se fez luz - é isto. É para isto que tenho de viver nos próximos anos, para eles. Sei que parece um discurso pouco moderno e contra aquelas teorias de que precisamos de tempo para nos, tempo a dois, blá blá, mas naquele momento, tudo fez sentido. Aquele sorriso, aquela sensação de eu ser a pessoa dele, a pessoa mais importante, o centro daquela felicidade.
Os meus filhos ja eram a minha prioridade, mas penso que depois daquela epifania apaziguou um bocado a tal culpa, o tal desespero de nao conseguir fazer tudo. Nos próximos anos, é para isto que vivo. Se calhar os meus filhos nunca me vão agradecer, como eu nunca agradeci aos meus pais, se calhar não vão descobrir a cura para o cancro ou  uma fonte inesgotável de energia, mas acho que o amor é mesmo isto, dar sem esperar receber. Só quero aquele sorriso - hoje para mim, no futuro será para outros.
Epifania que não invalida o meu outro objectivo: dar sorrisos também a outras crianças.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Recordações

O relógio castanho em cima da lareira. Tic tac, tic tac.
A toalha da mesa das crianças.
A cafeteira com o café de borras a assentar.
O copo de plástico cor de laranja.
O sofá, espuma em cima de tijolos.
Tic tac, tic tac.
O iman no sabonete da casa de banho.
O silêncio da sala, cheia de fotografias sorridentes.
A renda no móvel.
O bar, a sua portinhola engraçada, o cheiro das garrafas, os cálices bonitos.
A mesinha pequenina onde havia um pote com beijinhos.
A lata na cozinha com os rebuçados para a tosse.
A outra parte da sala onde estava a loiça dos almoços de domingo.
O relógio do quarto.
O roupeiro da sala, o seu espelho, as tralhas lá dentro.
A máquina da costura.

Quando me perguntam: o que queres da casa da avó, entro novamente naquela casa, relembro todos os pormenores, a avó sentada no sofá, em silêncio, a fazer renda, só se ouve o tic tac, o tempo lá passado "a fazer companhia", em silêncio, os almoços de batatas a murro e bacalhau assado, sopa de pepino a acompanhar, o silêncio para ouvir o telejornal da uma, e lá estamos os 3. Eu, a avó, o avô. O café antes do comboio (as canecas do café). As histórias da avó, as mãos todas enrugadas, o riso que lhe faz os tremeliques na cara que ela se apressa a tapar com a mão. O xaile, a renda, as agulhas, o cestinho da renda, a caixa da costura. A avó.

Estas lembranças já têm 5, 10, 20 anos. É assim que a lembro.
O que quero da casa da avó. Estas lembranças. Continuar a ser capaz de entrar naquela casa, de ouvir o "olhá Sofia".

Para sempre lá estarão os meus avós, Josefina e Eduardo.

Obrigada por tudo.