Adoro os meus filhos.
Adoro estar de férias.
Mas agora estou escondida num quarto a ouvir uma música que diz “let’s disappear until tomorrow”.
Claramente já esgotei as minhas reservas de alone time e já não os posso ver - nem ouvir - pintadinhos.
Adoro os meus filhos.
Adoro estar de férias.
Mas agora estou escondida num quarto a ouvir uma música que diz “let’s disappear until tomorrow”.
Claramente já esgotei as minhas reservas de alone time e já não os posso ver - nem ouvir - pintadinhos.
São 8h20.
Apetece-me esmurrar o António Costa por nos ter trancado em casa 4 dias. 2 ainda é como o outro, agora tirar um dia abençoado de escola, não se faz. Bem, daqui a 3 dias repetimos a dose.
São 8h20 e já meti um brufen, o café vem a seguir. Doem-me as costas, ainda e outra vez, e ainda tenho a dor de cabeça de ontem que ganhei na gritaria com os filhos. São 8h20 e já houve mais duas sessões de gritaria porque o meu filho decidiu atirar Nestum à irmã e depois ao limpar inundou-me a cozinha.
Tive um vislumbre estes dias do que foi o confinamento para nós e sinceramente cada vez percebo menos como sobrevivi àquilo. Sobrevivi, mas parece que envelheci 5 anos nestes meses.
Tenho a cabeça cheia de coisas para fazer, vem aí o Natal, sabe Deus como vai ser, mas para além da luta normal de compra de prendas, este ano acrescentamos o envio por correio para ser ainda mais giro. Vem aí o Natal sem fazermos a mínima ideia se podemos estar com a família, basta alguém estar de isolamento e já fomos. Pior que o Natal, são as duas semanas de férias. Ninguém merece.
São 8h20 e devia era ter o dia de férias para respirar. Mas não, vou passar o dia em 500 reuniões, formações e to dos.
Vim só aqui entre o brufen e o café para descarregar esta carga toda que tenho em mim às 8h20. Não sei se resultou muito, não me sinto muito melhor. Mas pronto, venha de lá o dia e seja o que Deus quiser. Amén.
Supostamente temos andado todos a aprender muito mais sobre nós. Tipo experiência científica, alteraram as condiçoes do ambiente e ficaram a ver os humanozinhos a lutar. Alguns estão neste momento a lutar pela vida, seja porque perderam a sua saúde, o seu ganha-pão, a sua sanidade. Mas nós, os outros, a quem os impactos desta crise são mínimos, estamos-nos a adaptar e, gosto de pensar, a aprender.
Estava a fazer scroll no Linkedin a ver se encontrava alguma coisa de interessante e vai-se a ver é exactamente a mesma treta que no facebook e imagino que no Instagram. Não será uma das lições que aprendemos a focar no que de facto é importante? E verdadeiro? Pois é só treta. Seja fotos perfeitas, seja posts perfeitos e tão racionais e profissionais.
Não será a lição disto tudo que temos de assumir o que somos? Assumir que somos pessoas, temos famílias e casas desarrumadas, temos gatos e vizinhos barulhentos. Que a vida pessoal e a profissional vivem agora em toda uma amálgama confusa e estranha. Que o trabalho ganhou ou perdeu relevância nas nossas vidas. Que isto só veio mostrar naquilo que somos realmente bons e realmente maus. Ou que queremos é fazer bolos e não projectos.
Ou se calhar que devemos parar de olhar para as redes sociais :)
Hoje faço 39 anos.
À medida que os anos avançam, os planos para o aniversário diminuem - um dia em casa no sofá a ver televisão parecia-me um plano perfeito, porque é coisa que raramente consigo fazer. Não ter nada para fazer das 8h às 17h, nenhum sítio onde ter de ir, nenhum horário a cumprir, ninguém a chamar por mim.
Mas a minha família, com as melhores das intenções, ofereceu-me uma massagem para ir fazer hoje com horário marcado. Depois vou almoçar com o marido. E as crianças já pediram para os ir buscar cedo e esperam uma festa quando chegarem.
Conclusão: mesmo que eu não tenha expectativas para o meu dia de anos, os outros têm e lá vou eu mais uma vez fazer o que esperam. Fica a promessa de tirar um dia ao calhas, sem ninguém saber, só para mim.
Parabéns a mim e a todos que fazem parte da minha história e feliz dia de finados para todos os meus queridos finados que cada vez mais vivem mais presentes comigo.
Os meus filhos às vezes chamam-me má. Não ligo. Sei que sou boa mãe, não perfeita, não a melhor, mas sou boa mãe. Até porque normalmente estas acusações vêm depois de eu insistir para eles tomarem banho, lavram os dentes, coisas assim. Chamam-me de má porque estão magoados, chateados, frustrados e querem que eu me sinta mal também. Porque a fonte de todos os males é sempre de fora e nunca vem do facto de quando os chamei para irem para a banheira terem dito "não vou" ou terem fugido na hora de lavar os dentes.
Parece uma reflexão muito banal mas hoje no trabalho aconteceu-me algo semelhante. Mas aí magoou-me, apesar de também ter a consciência tranquila e saber que foi feito para me magoar, ferir, tocar naquele ponto sensível. E funcionou sabem? É um caminho de ainda tenho de continuar a fazer, focar-me no que sou e em quem sou - e eu sei que sou boa mãe.
Não olho muito para trás. O tempo foi rolando e pouco a pouco voltámos ao "novo normal". Voltei a ter espaço e silêncio. Não olho muito para trás para relembrar ou reviver. Passou e isso era tudo o que eu queria. Março, Abril, Maio pareceram infindáveis quando os estava a viver sem esperança ou visão do que seria isso do novo normal, quando aceitaríamos o medo da ameaça e voltaríamos a pôr os pés fora de casa.
Não olho muito para trás mas guardo comigo que foi muito difícil. Fui de férias, fui à praia. Já perto do fim da tarde todos brincavam e eu fui até à beira mar, a ouvir o quase silêncio, o infinito do mar calmo, o sol já poente. Entreguei ao mar todo o peso e negrume que estes meses tiveram. Passou. Sobrevivemos. Aprendemos e crescemos. Reconheci o esforço tremendo que passei e deixei-o ir. Estava a preparar-me para entrar no mar quando o N. apareceu ao meu lado e disse com um sorriso: vamos.
Esta é a parte em que ainda tenho de trabalhar. O que o isolamento aproximou, o regresso ao normal logo tratou de afastar. Eu sei que parte do problema está em mim. Sinto que tenho de fazer e ceder muito mais pela nossa família do que ele. Sinto que esse esforço não só não é partilhado como não é reconhecido. Não me importo de ser a super mulher mas queria pelo menos sentir apoio. Porque não sou super mulher, sou apenas mulher. Ele ter aparecido ao meu lado à beira-mar é um sinal - eu não estou sozinha, só tenho de arranjar maneira de parar pensar que estou. Como sempre, aceitar o que não vai mudar mas sem com isso continuar a afastar quem está ali ao meu lado.