terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Socorro, tirem-me daqui

 Adoro os meus filhos.

Adoro estar de férias.

Mas agora estou escondida num quarto a ouvir uma música que diz “let’s disappear until tomorrow”.

Claramente já esgotei as minhas reservas de alone time e já não os posso ver - nem ouvir - pintadinhos.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

São 8h20

 São 8h20.

Apetece-me esmurrar o António Costa por nos ter trancado em casa 4 dias. 2 ainda é como o outro, agora tirar um dia abençoado de escola, não se faz. Bem, daqui a 3 dias repetimos a dose.

São 8h20 e já meti um brufen, o café vem a seguir. Doem-me as costas, ainda e outra vez, e ainda tenho a dor de cabeça de ontem que ganhei na gritaria com os filhos. São 8h20 e já houve mais duas sessões de gritaria porque o meu filho decidiu atirar Nestum à irmã e depois ao limpar inundou-me a cozinha.

Tive um vislumbre estes dias do que foi o confinamento para nós e sinceramente cada vez percebo menos como sobrevivi àquilo. Sobrevivi, mas parece que envelheci 5 anos nestes meses.

Tenho a cabeça cheia de coisas para fazer, vem aí o Natal, sabe Deus como vai ser, mas para além da luta normal de compra de prendas, este ano acrescentamos o envio por correio para ser ainda mais giro. Vem aí o Natal sem fazermos a mínima ideia se podemos estar com a família, basta alguém estar de isolamento e já fomos. Pior que o Natal, são as duas semanas de férias. Ninguém merece.

São 8h20 e devia era ter o dia de férias para respirar. Mas não, vou passar o dia em 500 reuniões, formações e to dos.

Vim só aqui entre o brufen e o café para descarregar esta carga toda que tenho em mim às 8h20. Não sei se resultou muito, não me sinto muito melhor. Mas pronto, venha de lá o dia e seja o que Deus quiser. Amén.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Evolução

 Supostamente temos andado todos a aprender muito mais sobre nós. Tipo experiência científica, alteraram as condiçoes do ambiente e ficaram a ver os humanozinhos a lutar. Alguns estão neste momento a lutar pela vida, seja porque perderam a sua saúde, o seu ganha-pão, a sua sanidade. Mas nós, os outros, a quem os impactos desta crise são mínimos, estamos-nos a adaptar e, gosto de pensar, a aprender.

Estava a fazer scroll no Linkedin a ver se encontrava alguma coisa de interessante e vai-se a ver é exactamente a mesma treta que no facebook e imagino que no Instagram. Não será uma das lições que aprendemos a focar no que de facto é importante? E verdadeiro? Pois é só treta. Seja fotos perfeitas, seja posts perfeitos e tão racionais e profissionais.

Não será a lição disto tudo que temos de assumir o que somos? Assumir que somos pessoas, temos famílias e casas desarrumadas, temos gatos e vizinhos barulhentos. Que a vida pessoal e a profissional vivem agora em toda uma amálgama confusa e estranha. Que o trabalho ganhou ou perdeu relevância nas nossas vidas. Que isto só veio mostrar naquilo que somos realmente bons e realmente maus. Ou que queremos é fazer bolos e não projectos. 

Ou se calhar que devemos parar de olhar para as redes sociais :)

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

39

 Hoje faço 39 anos.

À medida que os anos avançam, os planos para o aniversário diminuem - um dia em casa no sofá a ver televisão parecia-me um plano perfeito, porque é coisa que raramente consigo fazer. Não ter nada para fazer das 8h às 17h, nenhum sítio onde ter de ir, nenhum horário a cumprir, ninguém a chamar por mim.

Mas a minha família, com as melhores das intenções, ofereceu-me uma massagem para ir fazer hoje com horário marcado. Depois vou almoçar com o marido. E as crianças já pediram para os ir buscar cedo e esperam uma festa quando chegarem.

Conclusão: mesmo que eu não tenha expectativas para o meu dia de anos, os outros têm e lá vou eu mais uma vez fazer o que esperam. Fica a promessa de tirar um dia ao calhas, sem ninguém saber, só para mim.

Parabéns a mim e a todos que fazem parte da minha história e feliz dia de finados para todos os meus queridos finados que cada vez mais vivem mais presentes comigo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

You need to check yourself

 Os meus filhos às vezes chamam-me má. Não ligo. Sei que sou boa mãe, não perfeita, não a melhor, mas sou boa mãe. Até porque normalmente estas acusações vêm depois de eu insistir para eles tomarem banho, lavram os dentes, coisas assim. Chamam-me de má porque estão magoados, chateados, frustrados e querem que eu me sinta mal também. Porque a fonte de todos os males é sempre de fora e nunca vem do facto de quando os chamei para irem para a banheira terem dito "não vou" ou terem fugido na hora de lavar os dentes.

Parece uma reflexão muito banal mas hoje no trabalho aconteceu-me algo semelhante. Mas aí magoou-me, apesar de também ter a consciência tranquila e saber que foi feito para me magoar, ferir, tocar naquele ponto sensível. E funcionou sabem? É um caminho de ainda tenho de continuar a fazer, focar-me no que sou e em quem sou - e eu sei que sou boa mãe.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

 Não olho muito para trás. O tempo foi rolando e pouco a pouco voltámos ao "novo normal". Voltei a ter espaço e silêncio. Não olho muito para trás para relembrar ou reviver. Passou e isso era tudo o que eu queria. Março, Abril, Maio pareceram infindáveis quando os estava a viver sem esperança ou visão do que seria isso do novo normal, quando aceitaríamos o medo da ameaça e voltaríamos a pôr os pés fora de casa. 

Não olho muito para trás mas guardo comigo que foi muito difícil. Fui de férias, fui à praia. Já perto do fim da tarde todos brincavam e eu fui até à beira mar, a ouvir o quase silêncio, o infinito do mar calmo, o sol já poente. Entreguei ao mar todo o peso e negrume que estes meses tiveram. Passou. Sobrevivemos. Aprendemos e crescemos. Reconheci o esforço tremendo que passei e deixei-o ir. Estava a preparar-me para entrar no mar quando o N. apareceu ao meu lado e disse com um sorriso: vamos.

Esta é a parte em que ainda tenho de trabalhar. O que o isolamento aproximou, o regresso ao normal logo tratou de afastar. Eu sei que parte do problema está em mim. Sinto que tenho de fazer e ceder muito mais pela nossa família do que ele. Sinto que esse esforço não só não é partilhado como não é reconhecido. Não me importo de ser a super mulher mas queria pelo menos sentir apoio. Porque não sou super mulher, sou apenas mulher. Ele ter aparecido ao meu lado à beira-mar é um sinal - eu não estou sozinha, só tenho de arranjar maneira de parar pensar que estou. Como sempre, aceitar o que não vai mudar mas sem com isso continuar a afastar quem está ali ao meu lado.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Do isolamento 2

Já disse que isto é a pior coisa que já tive de fazer? Não estou a dizer a mais difícil , a mais cansativa. A pior. A mais merdosa. Não gosto da pessoa que sou quando sou mãe a tempo inteiro. Quando não tenho espaço, ar para mim - que saudades do trânsito da segunda circular. De só querer desistir e fugir mas não posso, porque estou em minha casa com os meus filhos. Não há para onde ir e não os posso deixar.
Desconfinámos um e como castigo divino ganhamos virose de febre a cada 4h. Amanhã vão  mais dois. E estou com pavor de me imaginar sozinha com eles dois dias por semana. No cenário mais favorável.
São as discussões constantes com o mais velho, em que não há merda de parentalidade positiva nem  negativa que resolva. É o bebé que só quer a mãe, noite e dia, colo, refeições, banho, biberão. O que vale é que o meu marido aparece como anjo alado e os leva a rua uns minutos e eu fico sozinha. Sozinha. Sozinha.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Do isolamento

Já perdi a conta às semanas. 10, 11?
Já perdi a conta às vezes que perdi estribeiras.
Já perdi a conta às vezes que senti não aguentar mais.
Já perdi a conta às vezes que me desfiz a chorar, até à frente dos meus filhos.
Já perdi a conta às vezes em que senti não aguentar mais.
Já perdi a conta aos momentos em que fiquei sem me conseguir mexer, de sentir um peso em cima de mim que mal me deixava respirar.
Já perdi a conta às vezes em que precisava que o meu companheiro de batalha me perguntasse se estou bem e me incentivasse a continuar.
Já perdi a conta às noites em que me fui deitar nada desejosa pela manhã seguinte.
Já perdi a conta às manhãs em que me senti como num filme manhoso em que as personagens estão presas no mesmo dia que se repete, repete, repete.
Já perdi a conta aos dias em que só desejo que cheguem ao fim.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Mom comes first - só que não


Já sabemos como é. As prioridades da mãe são aquelas coisas que se fazem quando tudo o resto está feito e de preferência quando não há ninguém a volta a chatear por que tem fome, comichão, quer ir brincar ou qualquer outra coisa. Ah, e quando a mãe ainda tem forças para se mexer e não está naquele estado em que todas as forçasse foram e já não dá nem para piscar um olho.
Pois bem, como podem imaginar as prioridades da mãe na prática não existem ou são reduzidas ao mínimo. A mãe vai jantar fora com as amigas quando ninguém está doente e o pai está em casa e se consegue arrastar. A mãe vai ao cabeleireiro quando não há festas de aniversário dos miúdos nem é preciso ir visitar país e avós e claro, quando ninguém está doente.
A vida de mãe é mesmo assim, de nada valem as lamúrias. Mas a mãe trabalha, gosta do que faz e é boa no que faz. Naquelas horinhas é crescida, é adulta, é segura, é confiante, é boa. Mas sabem o que mais? Isto também não é prioridade. Parece que o trabalho da mãe é algo que ele faz quando e se der jeito. Pois vejamos: horário de saída condicionado pelos miúdos, é preciso meter os dentistas, otorrinos, pediatras e terapeutas da fala aí pelo meio, à hora de almoço supermercado, comprar roupa, sapatos, prendas, o que for, e se algum estiver doente, desculpa aí trabalho, já foste. Normal, os meninos estão doentes tem de ficar em casa. E o pai, não ajuda? Ajuda, claro! O pai primeiro não se chega à frente,fica caladinho a de se o problema se resolve sozinho. Se tiver mesmo de ser, lá vê no seu calendário se tem um buraquinho que de para ficar com o miúdo. Com a mãe isto não acontece porque, lá está, o trabalho é algo que ela faz quando não há outras prioridades. Homem faltar ao trabalho é que não pode ser carago!