A Dona B. tem 60 anos, trabalha como mulher a dias. Contou-me uma vez que em Cabo Verde era patroa, tinha um restaurante e um cabeleireiro. Mas ficou doente, teve de vir uma temporada para Lisboa e, quando voltou, o marido tinha já outra no seu lugar. Ela resolveu voltar para Portugal e começou então a trabalhar como mulher a dias.
Há uns meses o marido veio para Lisboa, também por problemas de saúde. Primeiro ela quis-se divorciar, nunca fosse o homem morrer e ela ainda acabava por herdar as dívidas. Mas parece que a doença o deicxou debilitado, tonto como uma criança a quem é preciso pôr a comer, a dormir, tomar banho. E perguntava eu: não há outra pessoa que possa tomar conta dele? Há uma filha, mas ela quer é ficar com a pensão dele e não tem paciência para tratar dele. Então e ele não pode voltar para Cabo Verde? Está doente, a fazer tratamentos, problemas de rins. E diz-me a Dona B.: não o posso deixar. Não o faço por dinheiro, não quero dinheiro nenhum. Penso que se fosse comigo, com os meus filhos que tenho em Cabo Verde, também quereria que alguém fizesse o mesmo por eles. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Há muito tempo que não ouvia nada tão altruísta, tão cristão. Uma mulher que mal tem dinheiro para sobreviver, que já ajuda a filha e os seus 5 filhos (quando a filha se divorciou, a Dona B. partilhou o seu apartamento de 1 quarto com todos 6), mais todos os outros filhos que tem espalhados por aqui e por ali, trata do marido que a trocou, roubou e sabe Deus que mais, que precisa de cuidados permanentes, porque entende que é sua obrigação, que é obrigação de alguém. Fazer o bem na esperança de que quando ela também precisar, alguém lhe dará a mão.
É Natal. Inspiremo-nos para fazer o bem, para agradecer a todos que tornam o nosso dia um pouco mellhor e tentar também melhorar o dia de alguém.