sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...

Depois de amanhã já tudo vai ser diferente. Já não vou estar de licença, vou estar de férias. A minha bebé vai viver sem mim e vai conseguir, e pior, eu vou viver sem ela. São estas as nossas últimas horas de licença, ela dorme, eu escrevo e chove lá fora. Ninguém acredita, mas esses meses passaram a voar. E eu era capaz de recomeçar tudo de novo. Só me apercebo de que o tempo passou quando me lembro que ela nasceu em Agosto, era verão e fazia calor e agora termina Janeiro, é inverno e chove. Não quero deixar a minha bebé, não quero voltar ao mundo real, ao mundo a sério, ao mundo em que pago a alguém para ver os meus filhos crescer e serem lindos.
Estou mesmo deprimida. Deprimo, nestas últimas horas. Amanhã não, mas depois de amanhã tudo vai acabar, começar, recomeçar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Janela à chuva

Estou em fase de depressão pré-regresso ao trabalho. Por vários motivos: adoro a minha bebé, adoro estar em casa e adoro não trabalhar. É verdade, invejo de morte aquelas pessoas que conseguem ganhar a vida a fazer o que amam. Já eu faço "cenas" que nenhuma criança diz que quer ser quando for grande. Eu queria ser cabeleireira porque adorava cabelos - e a minha mãe não me deixava tê-los compridos. O mais parecido que conseguia era quando punha as calças do pijama na cabeça e experimentava como seria a vida com cabelos que me davam pela cintura. Queria ser secretária para ter papéis e escrever e organizar. Pois quis o destino que não fosse nem uma nem outra. Faço reuniões e documentos e planos. A boa notícia é que já posso ter o cabelo do comprimento que quero.
Muitas recém mães escrevem textos exagerados sobre como é ter um bebé, um inferno em que estamos sempre sujas e com fome (apesar de gordas) e as criancinhas são uns terrores que nos sugam toda a vida. Mas terminam sempre com a bela lição de que não quereríamos outra coisa no mundo, nunca as ditas criancinhas vão ler os escritos. Pois eu não me queixo. É verdade, não me queixo dos meus filhos. Também me deixam a cabeça em água, também me acordam n vezes por noite (e quando são dois é 2xn, às vezes n^2), mas comem, dormem, são lindos e adoram-me e pior, eu adoro-os. Adoro estar em casa e não sinto falta de estar com adultos. Não me levem a mal, gosto de conversar com adultos mas muitas vezes não são muito mais interessantes que as crianças lactentes. Além do que eu falo com adultos, pergunto à professora do meu filho como correu o dia e troco uma meia dúzia de frases com o meu marido entre os banhos das crianças, o nosso jantar e a hora em que desmaio no sofá. Maior parte destas frases são já quando ele me tenta acordar para ir para a cama, (diz ele) que tem de me chamar umas 30 vezes e só resulta quando me destapa e eu quase o agrido.
Por isso estou em pré-depressão. Depressão de pré. A aproveitar enquanto posso estar em casa, de pantufas e de mantinha, a ver a janela à chuva.